terça-feira, 15 de março de 2016

A tarefa dos educadores brasileiros

Por Ronaldo Gomes

Se o processo de alfabetização do Brasil começou tarde, apenas na primeira metade do século passado, haveria de se esperar que, lutando contra o tempo perdido, hoje a educação básica fosse democrática, acessível e efetiva. As expetativas se frustram diante de demasiados problemas.

Os recursos insuficientes, a falta de preparo dos professores e a escassa atuação dos pais no cenário educacional são apenas alguns dos fatores que fazem pesar os números: o Brasil ocupa a 60ª posição na classificação educacional dentre os 76 países avaliados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Onde então estará o problema central da educação? Cleber Costa, 29, professor de geografia nos ensinos fundamental e médio, aponta como uma das características determinantes na dificuldade enfrentada pelos professores, as más condições de trabalho e os baixos salários. “Existe o mal reconhecimento da profissão, pois, cargos de ensino superior, com a mesma carga horário ou com menor carga, são de maior remuneração”, conta.

Apesar da existência da lei nº 11.738, que determina em seu 5º artigo o pagamento de um piso salarial, reajustado este ano para pouco mais de R$2.000, apenas 14 estados pagavam o valor estabelecido no ano passado. O problema apontado por Cleber Costa é uma realidade nacional.

Para além da baixa remuneração, outros problemas fazem parte da realidade diária dos educadores brasileiros. Recaem sobre eles a responsabilidade total sobre a educação dos alunos. Cleber conta que alguns pais acham que a função de educar, nas variadas formas, é única e exclusiva da escola. Ygor Matheus, 22, professor de português e redação do ensino fundamental, conta que os pais que participam da educação escolar estão preocupados com o aprendizado dos filhos dentro da escola.

Ygor Matheus também aponta como um desafio diário enfrentado nas salas de aula a indisciplina, as dificuldades de aprendizagem e os problemas psicológicos e comportamentais dos alunos.

Nestes dois últimos fatores Ygor e Cleber concordam: os educadores não são preparados para lidar com algumas situações e problemas que só a realidade para além dos muros da universidade apresenta. Quando perguntado se o curso de licenciatura o preparou para ensinar a alunos com alguma dificuldade motora ou intelectual, Cleber é enfático: “Não prepara. Somos condicionados a ensinar para alunos sem dificuldades de aprendizagem ou nenhum tipo de problema neurológico. Os alunos hoje apresentam TDH, déficit de atenção e carências emocionais. ” Apesar disso, ele reconhece que hoje os cursos tentam encontrar uma saída para o problema. “Felizmente, alguns cursos de licenciatura, atualmente, aumentaram as horas da vivência escolar, para que aos poucos, os futuros professores possam perceber o que os aguarda na sua área de trabalho. ”


Educação pública e particular: as divergências.

As duas realidades educacionais – ensino público e privado - coexistem e compartilham problemas em comum, mas é a escola pública que serve de cenário para problemáticas que passam longe do ensino privado. Cleber já vivenciou ambas realidades e aponta precisamente a diferença entre as duas redes: “A segurança do trabalho e a falta de recursos em geral [da escola pública] faz com que o professor se torne, às vezes acomodado. Na particular atendemos alunos como clientes; temos várias tecnologias, cursos de aperfeiçoamento oferecidos e incentivo”.

Quando perguntado sobre a experiência de ensinar nas redes pública e privada, Ygor Matheus conta que há uma enorme diferença. “Na pública o ensino é mais solto, sem uma preocupação e um acompanhamento devido.  Na particular o ensino é centrado em metas, os recursos oferecidos são melhores, há uma cobrança e um acompanhamento por parte de todos”.

Cleber ainda aponta um dos problemas determinadores que dificultam a metodologia no ensino público: a violência. O educador acredita que isso, além de prejudicar o ensino e a aprendizagem, faz com que a procura pelos cursos de licenciatura diminua.

A violência nas escolas públicas.

De fato, a violência é um problema crônico da educação pública brasileira. Não raros foram os casos notificados à polícia de alunos que agrediram professores em sala de aula. Em Sergipe, o mais notório foi o caso do professor Carlos Cristian Gomes, atingido por cinco tiros disparados por um aluno, em 2014.

O caso do professor Carlos Gomes é emblemático; foi a concretização das inúmeras ameaças sofridas diariamente pelos educadores de todo o país. Não apenas a violência física se faz presente na lista de chamada dos professores; a violência psicológica também corresponde a boa parte dessas agressões.






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