Por Ronaldo Gomes
Se o processo de
alfabetização do Brasil começou tarde, apenas na primeira metade do século
passado, haveria de se esperar que, lutando contra o tempo perdido, hoje a
educação básica fosse democrática, acessível e efetiva. As expetativas se
frustram diante de demasiados problemas.
Os recursos
insuficientes, a falta de preparo dos professores e a escassa atuação dos pais
no cenário educacional são apenas alguns dos fatores que fazem pesar os
números: o Brasil ocupa a 60ª posição na classificação educacional dentre os 76
países avaliados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE).
Onde então estará o
problema central da educação? Cleber Costa, 29, professor de geografia nos
ensinos fundamental e médio, aponta como uma das características determinantes
na dificuldade enfrentada pelos professores, as más condições de trabalho e os
baixos salários. “Existe o mal reconhecimento da profissão, pois, cargos de
ensino superior, com a mesma carga horário ou com menor carga, são de maior
remuneração”, conta.
Apesar da existência da
lei nº 11.738, que determina
em seu 5º artigo o pagamento de um piso salarial, reajustado este ano para
pouco mais de R$2.000, apenas 14 estados pagavam o valor estabelecido no ano
passado. O problema apontado por Cleber Costa é uma realidade nacional.
Para além da baixa
remuneração, outros problemas fazem parte da realidade diária dos educadores
brasileiros. Recaem sobre eles a responsabilidade total sobre a educação dos
alunos. Cleber conta que alguns pais acham que a função de educar, nas variadas
formas, é única e exclusiva da escola. Ygor Matheus, 22, professor de português
e redação do ensino fundamental, conta que os pais que participam da educação
escolar estão preocupados com o aprendizado dos filhos dentro da escola.
Ygor Matheus também
aponta como um desafio diário enfrentado nas salas de aula a indisciplina, as
dificuldades de aprendizagem e os problemas psicológicos e comportamentais dos
alunos.
Nestes dois últimos
fatores Ygor e Cleber concordam: os educadores não são preparados para lidar
com algumas situações e problemas que só a realidade para além dos muros da
universidade apresenta. Quando perguntado se o curso de licenciatura o preparou
para ensinar a alunos com alguma dificuldade motora ou intelectual, Cleber é
enfático: “Não prepara. Somos condicionados a ensinar para alunos sem
dificuldades de aprendizagem ou nenhum tipo de problema neurológico. Os alunos
hoje apresentam TDH, déficit de atenção e carências emocionais. ” Apesar disso,
ele reconhece que hoje os cursos tentam encontrar uma saída para o problema. “Felizmente,
alguns cursos de licenciatura, atualmente, aumentaram as horas da vivência
escolar, para que aos poucos, os futuros professores possam perceber o que os
aguarda na sua área de trabalho. ”
Educação
pública e particular: as divergências.
As duas realidades
educacionais – ensino público e privado - coexistem e compartilham problemas em comum, mas é a escola pública que serve de cenário para problemáticas que
passam longe do ensino privado. Cleber já vivenciou ambas realidades e aponta
precisamente a diferença entre as duas redes: “A segurança do trabalho e a
falta de recursos em geral [da escola pública] faz com que o professor se
torne, às vezes acomodado. Na particular atendemos alunos como clientes; temos
várias tecnologias, cursos de aperfeiçoamento oferecidos e incentivo”.
Quando perguntado sobre a
experiência de ensinar nas redes pública e privada, Ygor Matheus conta que há
uma enorme diferença. “Na pública o ensino é mais solto, sem uma preocupação e
um acompanhamento devido. Na particular
o ensino é centrado em metas, os recursos oferecidos são melhores, há uma
cobrança e um acompanhamento por parte de todos”.
Cleber ainda aponta um
dos problemas determinadores que dificultam a metodologia no ensino público: a
violência. O educador acredita que isso, além de prejudicar o ensino e a
aprendizagem, faz com que a procura pelos cursos de licenciatura diminua.
A
violência nas escolas públicas.
De fato, a violência é um
problema crônico da educação pública brasileira. Não raros foram os casos
notificados à polícia de alunos que agrediram professores em sala de aula. Em
Sergipe, o mais notório foi o caso do professor Carlos Cristian Gomes, atingido por
cinco tiros disparados por um aluno, em 2014.
O caso do professor Carlos Gomes é emblemático; foi a
concretização das inúmeras ameaças sofridas diariamente pelos educadores de
todo o país. Não apenas a violência física se faz presente na lista de chamada
dos professores; a violência psicológica também corresponde a boa parte dessas
agressões.
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